PARA PROMOVER O BEM-ESTAR DA HUMANIDADE

 

Reunimo-nos em Loja com tal propósito. Por isso, convém ter em mente que o conceito de Humanidade transcende a simples noção de gênero humano.

Definida por Augusto Comte, é a Humanidade "o conjunto contínuo de seres convergentes". Com este último adjetivo, quer-se dizer que não são todos os homens que a compõem, mas somente aqueles que cooperam, com seus sentimentos, idéias e ações para o obra comum do progresso e de nossa elevação moral e espiritual. Mas, se se eliminam da noção de Humanidade as pessoas inúteis ou prejudiciais, se lhe incorporam, em compensação, "os animais domésticos, fiéis servidores e companheiros do homem".

Assim concebida, é a Humanidade um Grande Ser, que subsiste sempre e evolui continuamente.

Cada homem recebe tudo da Humanidade. Aliás, "o homem propriamente dito não é, no fundo, senão pura abstração: o que é real é a Humanidade", nas palavras do fundador da Sociologia.

A título de exemplo, Robinson Crusoe, isolado em sua ilha, valia-se da cultura armazenada pela série de gerações que contribuíram para formar a civilização em que viveu, incluindo preceitos de conservação de alimentos e de higiene, além dos materiais salvos do naufrágio, produtos do trabalho coletivo ao longo dos séculos, como ferramentas, armas etc.

A própria linguagem de que me valho para escrever este artigo e a compreensão dele pelos leitores é uma construção eminentemente coletiva da Humanidade em sua multissecular evolução. De fato, essa capacidade de apreender simbolicamente os estímulos externos e de expressar o que pensa e sente através de sinais abstratos só se desenvolve, realmente, no ser humano.

Conduzido pela Humanidade, o homem está vinculado a seus semelhantes – antecedentes e descendentes – recebendo e transmitindo os valores que norteiam seu próprio comportamento, numa dada cultura e num dado momento histórico, veiculados pela família e pelo ambiente imediato e, depois, pelo ambiente universal.

Por sua vez, elaborando a própria experiência, comunica-a aos seus contemporâneos e sucessores, seja em plano corriqueiro, seja – dependendo do caso – na profundidade de uma concepção filosófica.

Portanto, reiterando, é da Humanidade que o homem tudo recebe e a quem tudo deve. Não há nada no mundo de verdadeiramente individual: tudo decorre da cooperação das gerações. E, por maior que seja a contribuição do homem para a Humanidade, jamais poderá retribuir a ela, no mesmo grau, os imensos benefícios que dela recebeu, através da Família, da Pátria e da Sociedade.

  

Os direitos humanos

 Não existindo o homem sozinho, mas como participante da Humanidade, na sociedade em que surge e se desenvolve, não é possível queira ele exigir seus "direitos" de modo absoluto, sob o prisma exclusivamente individual.

Nessas condições, os direitos do homem só podem ser concebidos em relação à Humanidade, no sentido de que "ninguém tem outro direito que não seja o de cumprir o seu dever", resultando, portanto, os direitos de cada um dos deveres dos outros com ele e vice-versa.

Para promover o bem estar da Humanidade, de fato, mister se faz a consideração justa e perfeita dos deveres de cada um, enquanto contribuição, participação, que a sociedade de nós exige, através da subordinação de nossa individualidade, de nossos interesses pessoais, ao bem estar geral, à sociabilidade.

O exemplo deve começar de nossa atitude em Loja, micro-sociedade onde trabalhamos, amostra representativa de nossa obra social.

Elevar templos à virtude e cavar masmorras ao vício inclui a idéia de que o social deve preponderar sobre o individual e o relativo sobre o absoluto, em termos de "direitos".

De fato, o que se chama de direito só pode ser a garantia que a sociedade dá a cada pessoa para o cumprimento de seus deveres, de modo que todos cooperem para a bem estar da Humanidade.

Em outras palavras, o direito é uma função social e não uma prerrogativa individual.

 

 A liberdade de pensamento

 Como colorário da concepção de direito assinalada, surge a questão da liberdade de pensamento, de consciência ou espiritual, princípio bailar da Maçonaria.

Batemo-nos intensamente por sua garantia, no sentido de não coagir quem quer que seja a seguir qualquer ideologia ou doutrina, bem como de não se impedir que manifeste, de forma pacífica, seu pensamento ou modo de sentir.

Aspecto diferente, contudo, é permitir-se que, em nome da "liberdade", advenha a liberação de atos violentos ou destrutivos, sectários ou difamatórios contra pessoas ou instituições.

Por serem nossos direitos fundados em nossos deveres, só podem aqueles existir nos limites destes. Não há direito sem tal condição, não havendo, igualmente, liberdade sem limites.

Cada homem não existe somente para si, mas antes de tudo, para a Humanidade.

Se por liberdade entender-se aquilo que convém apenas para o indivíduo, estaremos no campo da injustiça.

A liberdade deverá ser subordinada ao que é útil à coletividade, ao bem estar da Humanidade. Nisso está a justiça, que deve pairar acima dessa liberdade sem limites.

Se a liberdade é um direito sagrado, pelo qual lutamos, pertence ela a toda Humanidade e o direito de um não pode ir a ponto de ofender o direito dos demais. O que é sagrado para um é sagrado para todos!

No mesmo sentido deve ser considerada a tolerância maçônica, subordinando-se sempre a individualidade à sociabilidade.

  

As palavras de Ruy Barbosa

 Nunca é demasiado assinalar como nosso Irmão Ruy Barbosa caracterizou, em 1919 (Teoria Política, Jacson Ed., Rio, 1950, pg. 17), a questão dos direitos humanos.

"A concepção individualista dos direitos humanos tem evoluído rapidamente, com os tremendo sucessos deste século, para uma transformação incomensurável nas noções jurídicas do individualismo, restringidas agora por uma extensão, cada vez maior, dos direitos sociais. Já se não vê na sociedade um mero agregado, uma justaposição de unidades individuais, acasteladas cada qual no seu direito intratável, mas uma entidade naturalmente orgânica, em que a esfera do indivíduo tem por limites inevitáveis, de todos os lados, a coletividade. O direito vai cedendo à moral, o indivíduo à associação, o egoísmo à solidariedade humana".

Contribuamos para tornar cada vez mais reais as palavras desse ilustre Maçom, em nosso trabalho de promoção do bem-estar da Humanidade.

 

José Cássio Simões Vieira

Mestre Instalado da ARLS Theobaldo Varoli Filho