A LEI DOS TRÊS ESTADOS
Theobaldo Varoli Filho, nosso patrono, em vários pontos de seu "Curso de Maçonaria Simbólica", em face da influência cultural que recebeu do Positivismo, cita a LEI DOS TRÊS ESTADOS, formulada por Augusto Comte, o Fundador da Sociologia.
Julgo oportuno trazer algumas explicações a respeito, estudioso que também sou das doutrinas do Filósofo.
Consiste tal Lei em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estados teóricos diferentes: o estado teológico ou fictício; o estado metafísico ou abstrato e o estado científico ou positivo.
Em outras palavras, o espírito humano, por sua natureza, emprega sucessivamente, em cada uma de suas pesquisas, três métodos de filosofar, de caráter essencialmente diferente e, até, radicalmente oposto. Daí, três espécies de filosofias ou sistemas gerais de concepções sobre o conjunto dos fenômenos, que se excluem mutuamente: a primeira é o ponto de partida necessário da inteligência humana; a terceira seu estado fixo e definitivo; a segunda é unicamente destinada a servir de transição.
No estado fictício, o homem atribui os fenômenos ou acontecimentos a "vontades"imaginárias, idênticas a seus estados de espírito. Numa primeira fase, supunha que a vontade determinante de um fenômeno estava no próprio ser que se observa, considerado análogo ao próprio homem. Por exemplo, quando a criança ou o selvagem vêem uma pedra cair, supõem que está caindo porque assim o quer; quando vêem correr a água de um regato, supõem também que ocorra por livre vontade dela. O mar se torna tormentoso porque está bravo com algo. A árvore produz frutos porque quer produzi-los; se o fruto é agradável ao paladar, atribuem o fato a um afeto especial que ele teria por nós; se venenoso, ao rancor. A esse estado inicial denominou-se fetichismo, ou mais vernacularmente, feiticismo.
Reconhecendo, mais tarde, a diferença entre os seres vivos e os que não são, os fenômenos passam a ser atribuídos a "vontades" de seres existentes fora dos corpos nos quais se processam. De início, são os astros que presidem os principais fenômenos do mundo. É a fase astrolátrica. Depois, com a passagem do estado nômade para o sedentário e a observação da constância do espetáculo celeste, são os deuses residentes nesses mesmos astros que governam as propriedades ou acontecimentos, existindo tantos deuses quanto os fenômenos considerados. Estamos, agora, em pleno politeísmo.
Com o desenvolvimento da abstração, esses deuses foram hierarquizados e submetidos à preponderância de um só, donde o monoteísmo.
No estado metafísico, substitui-se Deus pela Natureza, por "forças abstratas", concebidas como suscetíveis de engendrar os fenômenos em estudo. Assim, ao explicar um fenômeno, o homem repete e descreve o próprio fenômeno, em função de uma entidade abstrata: Por que o ópio faz dormir? Porque tem "virtudes dormitivas", respondiam os filósofos da Idade Média.
Atingindo o estado positivo, o homem passa a explicar os fenômenos por outros fenômenos. Por exemplo, a dilatação dos metais pelo calor e não por "vontade" deles; os ventos pela ocorrência de dois pontos da superfície terrestre aquecidos desigualmente e não porque alguma figura mitológica estivesse a assoprar o ar atmosférico.
Reconhecendo a impossibilidade de atingir o absoluto, o homem renuncia a conhecer a causa íntima dos fenômenos. Limita-se a observar os fatos, a raciocinar sobre eles, a buscar-lhe relações invariáveis. A explicação não é baseada na causa primária do fenômeno, caracterizando-se por ligá-lo a outro de maior generalidade ou demonstrar sua subordinação a uma lei natural.
Vejamos alguns exemplos desses três modos de filosofar.
Sabemos que, enchendo de uma substância líquida um tubo, aberto em uma das extremidades, e introduzindo-se a extremidade aberta em uma cuba contendo o mesmo líquido, a parte contida no tubo posiciona-se em uma determinada altura, acima do nível do líquido contido na cuba.
O filósofo feiticista dirá que o líquido assim se deslocou por vontade própria; o teológico, que houve a influência misteriosa de um deus; o metafísico dirá que a Natureza odeia o vácuo.
A explicação positiva não é baseada na causa primária do fenômeno. Não se procura o por que, que não se pode atingir, mas o como. A atmosfera pesa sobre a superfície do líquido contido na cuba e o faz subir no tubo vazio, até formar um cilindro líquido, cujo peso equilibra a pressão exercida na superfície do líquido contido na cuba. Essa explicação serve, não só para a lei do equilíbrio, em geral, mas permite medir, a cada momento, a pressão atmosférica.
Cotejemos a maneira como, em cada estado, se interpreta o raio.
A concepção feiticista considera o raio um ser concreto, tendo os mesmos pendores que o homem, cumprindo, portanto, a este reverenciá-lo e lisonjeá-lo, para que se abrande e não repita seus malefícios. As escolas teológicas interpretam-no como instrumento da cólera de Zeus ou Júpiter, ou de qualquer outra entidade divina, que deve ser "desfeita" por meio de humilhações, promessas, rituais etc.
Para as escolas abstratas, o raio é resultado de "fluidos fulgurantes", cuja existência é completamente distinta dos corpos eletrizados.
Do ponto de vista das escolas positivas ou científicas, o raio não é mais do que um fenômeno idêntico ao que os físicos diariamente provocam, em pequena escala, em seus laboratórios, quando aproximam dois corpos diferentemente eletrizados. Renuncia-se ao conhecimento da natureza íntima ou da essência da eletricidade, mas entrega-se à pesquisa da maneira pela qual se manifesta, isto é, das leis a que obedece, a fim de prever-lhe os efeitos, aproveitando-os, quando úteis, e afastando-os, quando nocivos.
Em um mesmo homem ou em uma mesma época podem coexistir os três estados ou sistemas de concepções, de acordo com a complexidade crescente ou a generalidade decrescente do fenômeno considerado. Em relação a um fato da Biologia, por exemplo, pode alguém ter uma visão altamente científica, mas diante de uma questão psicológica achar que as figas afastam os maus-olhados e bruxarias, enquanto objetos em ferradura evitam desastres, tudo numa remanescente posição feiticista.
A Maçonaria, enquanto escola de aprimoramento intelectual, estimula-nos a desenvolver uma concepção científica dos fenômenos do mundo e do homem, podo de lado o pensamento mágico-animista, eivado de superstições e magia, que obedece à chamada "lógica afetiva". Tal é a posição expressa por Theobaldo Varoli Filho em seu "Curso de Maçonaria Simbólica".
A crença em Deus
Diante do exposto, a crença em Deus é incompatível com o espírito científico?
Não se espera do Maçom a crença em um Ser Superior?
Depende do significado que Deus possa ter para cada pessoa. Se se concebe um Deus "individual", antropomórfico, sujeito a "caprichos", "vontades", "simpatias", "antipatias", formado pela projeção dos sentimentos do próprio homem, a incompatibilidade existe.
No entanto, se se entende por Deus a Realidade Absoluta, eterna, infinita e universal; a Causa-Prima de todas as coisas; a Consciência Cósmica; o Grande Arquiteto do Universo ou, no dizer de Einstein, a Grande Lei que estabeleceu e mantém a Harmonia do Universo, então não há incompatibilidade alguma.
O problema é o de se exigir a demonstração, a prova analítica da realidade de Deus, pois não sendo Ele um objeto ou indivíduo, a certeza que dele temos não pode vir por essas vias.
A certeza de Deus brota das profundezas da experiência íntima. É o resultado de uma intuição espiritual, que não pode ser intelectualizada, nem explicada a quem não a teve. Quem nunca teve amor ou alegria, nunca saberá o que isso significa, por mais que alguém lhe tente definir, descrever e analisar teoricamente.
Como diz o próprio Einstein "A certeza intuitiva não pode ser alcançada pela análise intelectual".
José Cássio Simões Vieira
Mestre Instalado da ARLS Theobaldo Varoli Filho