O CONHECIMENTO DA REALIDADE

 

A Maçonaria, em sua dimensão filosófica, dá muita ênfase ao estudo da maneira pela qual o homem obtém o conhecimento da realidade que o cerca.

É através dos sentidos que o homem se liga, em direção centrípeta, com a realidade exterior, buscando alimento, estímulo e regulação de nossas concepções mentais.

A imagem que fazemos do mundo está na dependência de nossa sensopercepção, cujo primeiro escalão está representado pelos órgãos dos sentidos.

Cada sentido contribui, a seu modo, para a noção de mundo externo, dentro da faixa de impressões que é capaz de captar.

 

A intencionalidade da sensopercepção

O cérebro humano, por outro lado, não é um mero receptor passivo das impressões oriundas do meio exterior. Se assim fosse, ficaria aturdido com a quantidade astronômica de informações que lhe chegam, através dos canais sensoriais, na unidade de tempo.

De fato, o nervo óptico transmite, indistintamente, tudo o que se apresenta ao campo da visão; o acústico, todos os sons capazes de impressionar o ouvido e assim por diante, em relação aos demais sentidos.

Resulta daí que, para perceber com nitidez e de forma útil – e não desconexa – as sensações recolhidas pelos órgãos do sentido, é mister que o homem as selecione e as configure significativamente, captando-as com intencionalidade, através do intelecto, sob a influência de suas necessidades afetivas. Só assim se dá a percepção, a partir da qual faremos a representação do mundo, matéria prima de nossos conceitos juízos e raciocínios.

 

A contribuição de Aristóteles e Kant

Sabe-se, desde Aristóteles, que não há em nosso intelecto noção alguma, cujos elementos fundamentais não tenham vindo do mundo exterior através dos sentidos ("Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu"), exceto a própria inteligência, como completou, no século XVII, Leibniz. Um século mais tarde, Hume esclareceu melhor o assunto, separando a parte devida às sensações da parte relativa à meditação.

Sendo os sentidos a ponte de ligação entre o mundo e o homem, Kant colaborou com os citados pensadores, esclarecendo que nossas concepções apresentam duas partes perfeitamente distintas: uma objetiva, outra subjetiva.

A parte objetiva é a que provém, através dos sentidos, do ambiente, em sua mais ampla acepção, isto é, do mundo exterior, que é o objeto contemplado. A parte subjetiva é a ligação que a mente, isto é, o sujeito contemplador, elabora a partir dos elementos hauridos, pelos sentidos, no meio exterior. Subjetivo, portanto, é o que concerne ao sujeito ou inteligência contempladora. Objetivo, tudo o que diz respeito ao objeto ou coisa contemplada.

 

As várias imagens mentais

Se nossa espécie fosse cega, por exemplo, uma série de noções ou fenômenos do mundo objetivo nos seria ocultada, assim como, reciprocamente, um sentido novo que tivéssemos nos revelaria inúmeros fatos de que não podemos sequer formar idéia.

De forma análoga, o horror de passar a vida num calabouço, sem luz, ou a idéia de pudor, não existem para cegos de nascença. No último caso, eles podem adquirir os cuidados correspondentes do vestuário pela recomendação dos que vêem, sem compreender sua necessidade. De fato, não podem formar uma concepção moral da nudez através da visão.

Os próprios sonhos dos cegos natos divergem, fundamentalmente, dos sonhos dos que são dotados de visão: nunca se lhes apresentam, como naqueles, imagens oníricas visuais, mas quase que exclusivamente tácteis. Os surdos de nascença, se apresentarem um quadro psicótico, não terão alucinações auditivas, isto é, não serão atormentados por "vozes".

Alguém, no entanto, que tenha perdido um órgão do sentido, o da visão, por exemplo, já depois de haver formado em sua mente uma representação do mundo, a partir daquela categoria sensorial, embora não possa ter mais novas percepções, conserva as imagens anteriormente adquiridas, podendo dar-lhes novos arranjos e conceber o mundo exterior com muita riqueza, a ponte de ganhar a nomeada de um Homero ou de um Milton. O mesmo se diga de um Beethoven, na harmonia e melodia de suas composições musicais, apesar de haver ficado surdo.

 

A relatividade dos conhecimentos

Nossas concepções dependem, portanto, do mundo e do homem. Os fenômenos do mundo exterior sempre implicam um indivíduo que os observa e os interpreta. Assim, não há fatos com a objetividade pretendida, pois não percebemos o mundo como um dado bruto, desprovido de significados. "As coisas nos parecem verdadeiras ou falsas, segundo o prisma sob o qual as consideramos". "Só julgamos as coisas pelo prisma de nossa própria personalidade". "Vemos as coisas não como são, mas como somos". "Assim é se lhe parece".

Todos os nossos conhecimentos, por isso, são relativos, não podendo haver conhecimento absoluto das coisas, ou seja, sem subordinar-se ao mundo e ao homem.

Todo conhecimento é relativo. Essa é a única verdade absoluta!

 

A contribuição de Augusto Comte

O Fundador da Sociologia ao estudar as leis que regem o entendimento, estabeleceu, dentre elas, a seguinte: "Subordinar as construções subjetivas aos materiais da ordem objetiva".

Tal subordinação é o princípio básico da harmonia mental e do pensamento científico.

Para nós Maçons, pesquisadores que somos, é de importância fundamental saber serem relativas as verdades das doutrinas científicas e que nossas teorias não passam de representações aproximativas da realidade. Sendo elas o resultado dos fatos observados, dependem, de um lado, de nosso modo de raciocinar para formulá-las e, de outro, da maneira como esses mesmos fatos foram percebidos pelos sentidos.

Seja como for, se houver predominância da elaboração subjetiva sobre o mundo objetivo, haverá extrema liberdade na formação de hipóteses, caindo-se em concepções fantasiosas ou matizadas de incomparável credulidade, com predominância dos impulsos afetivos na elaboração cognoscitiva.

 

A posição filosófica do Maçom

Evitemos em nossas especulações o "pensamento mágico", profundamente subjetivo, afetivo e instável e adotemos o pensamento lógico, muito mais objetivo, racional e estável. Senão, cairemos numa postura fantasiosa, eivada de misticismo, ao invés de assumirmos uma postura racional, crítica e dialética, a única que se espera, ou seja, um sistema de concepções gerais sobre o mundo e o homem baseado, exclusivamente, em dados de cunho científico.

Ocupemo-nos dos problemas e questões verificáveis pela observação, a ela subordinando a imaginação.

 

José Cássio Simões Vieira

Mestre Instalado da ARLS Theobaldo Varoli Filho