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ABUSO E DEPENDÊNCIA DE ÁLCOOL E DROGAS

(Contribuição ao Projeto MAÇONARIA CONTRA AS DROGAS)

 

Do ponto de vista terminológico, pomos de lado, atualmente, as expressões "toxicomanias", "toxicofilias", "vício", "dopagem" etc., por apresentarem conotações pejorativas, deturpações ou imprecisões.

É mais adequado falar-se me transtornos psíquicos associados ao uso de substâncias psicoativas ou dependência química.

O uso de substancias que modificam o estado psicológico tem ocorrido em todas as culturas conhecidas desde a antiguidade, sendo geralmente limitado por regras sociais a determinadas circunstâncias, rituais, papéis na comunidade etc. O uso se inicia por determinantes sócio-culturais, ligados à disponibilidade da substância em questão e às finalidades de seu uso, inclusive a busca de euforia e relaxamento.

Uma vez que o indivíduo inicie seu uso, este poderá ocorrer sem acarretar maiores problemas, como algo ligado aos costumes de seu ambiente, de forma recreativa, e até abandonado após algum tempo. Poderá, no entanto, acarretar sérios problemas para o usuário e para a sociedade.

Entre a dependência grave e o uso moderado, dito social, existe um continuum, quer dizer, não há uma fronteira nítida entre o simples uso, o abuso e a dependência e as denominações correspondentes são muito imprecisas: uso de risco, uso problemático, uso prejudicial, uso desbragado etc.

 

O diagnóstico da dependência.

 

Na maior parte das vezes, a droga vai assumindo um papel progressivamente mais importante na vida do usuário; cada vez mais suas atividades e seu círculo social vão se vinculando ao uso da substância, daí decorrendo problemas familiares, policiais, jurídicos econômicos, médicos etc. O ponto em que passamos a diagnosticar abuso ou dependência é um tanto arbitrário, em função dos usos e costumes do meio sócio-cultural em apreço.

No caso do álcool, em particular, há, inclusive aquele chiste: para o médico, alcoólatra é o indivíduo que bebe mais do que ele...

Nessas condições, a fronteira entre o uso "aceitável" e a dependência (plena patologia) de uma substância tem de ser arbitrada por um critério multidimensional.

A Organização Mundial de Saúde (CID-10) define farmacodependências como "um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, nos quais o uso de uma substância ou classe de substâncias torna-se prioritário em relação a outros comportamentos que antes tinham maior importância para um dado indivíduo".

O indivíduo passa, então, a fazer coisas que não fazia sem o uso da substância e deixa de fazer coisas que antes do uso dela fazia.

A partir da definição acima, são propostas as seguintes diretrizes para o diagnóstico:

a) um forte desejo ou compulsão para usar a substância;

b) uma dificuldade de controlar o comportamento em relação ao uso da substância, quanto ao início, final e níveis de uso, bem como quanto ao intervalo entre o uso (perda da liberdade ou da auto-determinação frente ao ato);

c) uma "síndrome de abstinência" (em nível físico ou psíquico), quando o uso da substância é interrompido ou reduzido, com alívio da sintomatologia, se ela lhe é oferecida novamente (dependência química);

d) formação de tolerância, de sorte que doses crescentes da substância psicoativa são necessárias para se obter os efeitos originalmente produzidos por doses menores (o usuário, por exemplo, toma uma dose de álcool ou aspira uma de cocaína suficiente para matar ou incapacitar uma pessoa não dependente);

e) desinteresse progressivo por atividades ou prazeres alternativos, estando o tempo e a energia polarizados para obter ou utilizar a substância, bem como para se recuperar de seus efeitos;

f) persistência no uso da substância, a despeito das condições obviamente danosas à saúde (cirrose, demência, lesão do septo nasal etc. etc.) ou à sociedade (atividade criminal para obter a droga);

c) consciência da compulsão para usar a droga durante as tentativas de parar seu uso.

 

Etiologia (causas)

 

O que leva uma pessoa, após experimentar a droga, a tornar-se dependente dela?

Não há uma resposta simples e única para tal pergunta.

Consideramos a interação de, pelo menos, três fatores: a droga em si, a personalidade do indivíduo e o ambiente.

 

A droga

 

Há muitas evidências bioquímicas e farmacológicas que diferentes substâncias têm diferentes "capacidades" de fazer com que seus usuários se tornem dependentes.

Há drogas que, embora agindo sobre o cérebro, não levam à dependência. São os neuroléticos (clorpromazina, haloperidol, risperidona etc.). Outras, como os benzodiazepínicos (diazepam, lorazepam, flurazepam etc.) e os opiáceos (morfina, heroína etc.) levam a ela com extrema facilidade.

Essa verificação tem comprovação clínica e experimental em animais de laboratório, avaliando-se comparativamente o grau de dependência para cada uma dessas substâncias.

Sabemos que a cocaína e o "crack" causam uma dependência muito grave em pouco tempo de uso.

Para que alguém se torne dependente de álcool, anos são necessários.

Ligada à droga está a via de administração.

A via intravenosa é a que mais rapidamente se associa à dependência (cocaína). Também, a via pulmonar, pela grande superfície de absorção, se equipara à primeira citada.

Descreve-se a via retal, por meio de supositórios (cocaína em pó amassada em um pedaço de sabão de coco), trazendo rápida dependência, porque quase equivale a uma injeção intravenosa.

Em relação às drogas "ilícitas", do ponto de vista estatístico, fica difícil avaliar o "poder" de formação de dependência, já que as informações dos usuários são pouco confiáveis. Mas, na experiência dos serviços especializados no tratamento de dependências, a cocaína aparece em primeiro lugar.

Entre as drogas "lícitas", os benzodiazepínicos têm primazia.

 

A personalidade.

 

A personalidade, no sentido da totalidade dos traços emocionais e comportamentais que caracterizam uma pessoa em suas interações diárias com os demais, pode estar sujeita a uma série de transtornos ou anomalias, constitucionais ou vivenciais.

Dentre esses transtornos, destacam-se os que levam a pessoa a uma dificuldade de lidar com as demandas da vida (astênicos), a um afrouxamento da vontade (abúlicos), a uma insegurança e sugestibilidade excessivas, a uma frieza de sentimentos com falta de introjeção dos valores ético-morais, a uma dificuldade de manter uma constância do humor ou o equilíbrio emocional etc.

Para essas pessoas, a droga entra como uma espécie de "muleta", na vã tentativa de compensar as insuficiências da vida afetiva e volitiva. Fogem da realidade, encastelando-se em um "paraíso químico".

Quanto maior for a desarmonia da personalidade, maior o grau de dependência, pela dificuldade de mobilizar recursos psíquicos para se libertar da droga.

 

O ambiente.

 

De início, há que se considerar o ambiente familiar.

O primeiro "modelo" que se recebe para se vincular às drogas vem da observação, na infância, do adulto que fuma para buscar um "relax", que toma um calmante, para tapar uma emoção, que bebe um aperitivo para ficar mais descontraído e assim por diante.

Depois, na adolescência e juventude, vem o estímulo, o "convite", dado pelos demais: o comportamento do círculo de amigos, colegas, induzindo, apregoando, persuadindo que é um "charme" usar esta ou aquela droga (dependendo da disponibilidade e do preço dela). Muitas vezes, o jovem não tem segurança e assertividade suficientes para resistir, pois teme não ser aceito pelo grupo.

Há, também, uma série de mitos: quem não usa tal droga é porque não tem confiança em si, não tem coragem de se conhecer melhor, não é macho etc.

Há estudos relacionando a dependência à estrutura familiar desorganizada ou à falta de imposição de limites por parte desta. Porém, a metodologia desses trabalhos é difícil, porque o dependente procura sempre culpar os demais.

Ainda podemos citar, quanto aos aspectos ambientais, a crise de valores por que passamos, o conflito de gerações, a cultura do hedonismo, a falta de metas de vida e muitos outros fatores.

 

Tratamento

 

Não existe nenhum tratamento universal e nenhuma forma de tratamento é melhor do que a outra. Cada caso é um caso.

Há princípios básicos, no entanto, que devem estar presentes.

O dependente deve ter o desejo de se tratar. Se recusar, deve ser motivado ou mesmo instado.

Uma vez obtida a concordância, deve ficar claro que o objetivo é a abstinência completa de todas as drogas. A parada do uso deve ser feita de uma vez e não gradualmente. Se houver sintomas de abstinência, estes devem ser tratados, sem que sirvam de justificativa para continuar o uso.

A família deve participar do tratamento, recebendo orientação de como deve lidar com o usuário, evitando sentimentos de culpa, raiva, frustração, cumplicidade.

São necessários mais de seis meses para dizer que a dependência foi vencida. O usuário deve ser reconhecido e elogiado por sua melhora. A internação é um recurso auxiliar apenas e não a "solução mágica" do problema.

São comuns as recaídas e não devem ser consideradas "fracasso" ou motivo de recriminação. Devem ser aproveitadas como um aprendizado.

Um dos fatores de recaída é o uso esporádico ou alternativo de alguma outra droga, por exemplo, "abandona-se" o álcool, mas passa-se a fumar maconha. Nesses casos, há diminuição da capacidade de autodeterminação ou mesmo a possibilidade de uma droga desencadear o desejo de uma outra.

Há uma crença de que é importante, durante o tratamento, "testar" o controle ou se houve perda do desejo, usando-se pequenas quantidades ou expondo-se às solicitações do ambiente onde se usava a droga. Isso é um engano e uma condição de risco.

 

Problemas médico-legais

 

Somos de parecer que há de se distinguir o grande traficante, profissional, do indivíduo dependente, que vende a droga, em pequena escala, no seu círculo de relacionamento social, apenas para obter dinheiro para manter o uso próprio.

Ao primeiro grupo a legislação deve ser a mais severa possível. Em relação ao traficante-dependente, o problema deverá ser olhado mais como pertencente à alçada médica do que exclusivamente filiado ao âmbito jurídico-policial.

De qualquer forma, não somos favoráveis à descriminalização do comércio de drogas, pelo que já demonstrou a experiência de alguns países que a adotaram, tornando o problema do consumo mais grave ainda.

Em que pesem os problemas criminais correlatos, quanto mais dificultarmos o acesso às drogas, mais pouparemos o usuário de suas conseqüências deletérias.

 

O uso de drogas na adolescência

 

Algumas condutas podem ser, no seu conjunto e não isoladamente, sugestivas do uso de drogas pelos adolescentes. Entre eles, pode estar nosso amado filho... Com uma overdose de amor e disciplina, precisamos ajudá-lo.

Mudanças súbitas ou progressivas nas atitudes ou condutas, sem uma razão compreensível pelas próprias características psicológicas da idade.

Declínio da freqüência e do rendimento escolar e não cumprimento das obrigações diárias.

Indisciplina e rebeldia.

Atitudes agressivas e críticas infundadas aos pais e familiares.

Desaparecimento de objetos do ambiente doméstico.

Perda de motivação para alcançar metas de vida construtivas.

Solicitação de empréstimo de dinheiro aos amigos e familiares.

Busca de novos amigos, sobre os quais pouco fala e não freqüentam seu ambiente doméstico.

Cutela excessiva para que não mexam em seus objetos e pertences, muitos dos quais relacionados com o uso de drogas (isqueiros, cachimbos, pacotinhos etc.).

Isolamento no quarto.

Em próximos artigos, trataremos do estudo de cada droga em particular.

 

José Cássio Simões Vieira

Mestre Instalado da ARLS Theobaldo Varoli Filho

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